Perdoa-me Senhor…

Silêncio!

silencio

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner Andresen,
em Obra poética I, Circulo de leitores
{também em: Geografia, 1962}

Comentário:

É quando paro para escutar, que me oiço e me encontro.
Se eu não aprender a parar, por mim, alguém ou alguma coisa me hão-de fazer parar.
Primeiro paro, reparo em mim, reparo-me.
Só depois avanço, “caminho”, faço caminho.
Então, com os outros [com gestos solenes, arrisco e vivo].

Mãe

In Resurrectione tua

Oração da paz – Oração de S. Francisco de Assis

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Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz;
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
Onde houver erros, que eu leve a verdade;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei com que eu procure mais consolar,
que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado;
Pois é dando que se recebe;
É perdoando, que se é perdoado;
E é morrendo que se vive para a vida eterna.

Amar e mais amar, com simplicidade!

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Deus quer ser em nós, pobremente… sem os apêndices de santidade que tornam as almas admiráveis… 

É o próprio Deus que quer ser o único centro do nosso coração e deseja ser Ele o nosso gozo…

Deus quer ser o principio de tudo o que há em nós de santo… e, para isso, tudo o que depende de nós e da nossa fidelidade activa, é muito pequeno e contrário à santidade…

Em nós não pode haver nada de grande aos olhos de Deus, a não ser que seja por via passiva… Assim, não pensemos mais nisso…

Deixemos a Deus o cuidado da nossa santidade…

Ele conhece os meios… Eles dependem de uma protecção e de uma operação singular da Sua Providência…

Normalmente, estes meios realizam-se sem que os vejamos… e por isso mesmo nos desagradam… e nunca são aquilo que esperamos…

Caminhemos em paz nos pequenos deveres da nossa fidelidade activa, sem aspirar aos grandes… Porque Deus não se nos quer dar pelos nossos cuidados…

Nós seremos os santos de Deus, da Sua graça e da Sua Providência especial… Ele sabe o posto que nos quer dar…  Deixemo-lo fazer…

… e sem formarmos, daqui em diante, falsas ideias e inúteis sistemas de santidade, contentemo-nos em ama-l’O sem cessar,… caminhando com simplicidade pelo caminho que Ele nos traçou… e onde tudo é tão pequeno aos nossos olhos e aos olhos do mundo…

ANÓNIMO DO SÉC. XVIII

Chamo-Te

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Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,

Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o Teu reino antes do tempo venha

E se derrame sobre a Terra

Em primavera feroz precipitado.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

Advento

Senhor! Estás chegando!
Dizem-me que virás
Dentro de pouco tempo
E já fico esperando.

E até sei já
Que, por aqui,
Depois de ti,
Tudo se transformará.

Contou-mo um Isaías
Que, em teu nome nos diz
O que dirias
Se já estivesses cá…

Estas chegando!
E o meu coração bate feliz…
Se, por ti esperou tanto,
Sobressalta-se agora:
– Doce Espírito Santo,
Vem, Senhor, sem demora!…

(Maria de Lourdes Beja)

Amadurecer!

Há um tempo, nas nossas vidas, em que ao pensar nas coisas adquiridas (não materiais!), sentimo-nos realizados e cheios de confiança ao conseguir visualizar os nossos feitos, as nossas conquistas, o quanto evoluímos, numa aprendizagem em diversos campos que começou por acontecer duma forma exponencial e que talvez a certa altura passou só a sê-lo de uma forma linear. Desde que prossigamos o nosso caminho, com a abertura de chegar sempre mais além, não importa o como evoluímos e amadurecemos, os tempos são os de cada um.

Pior é, quando neste exercício ficamos cientes de que já atingimos um patamar tão alto, e como tal, aí permanecemos, contemplando o quanto crescemos, convencidos de que onde chegamos, é uma meta em si. E ao fazê-lo estagnamos e quebramos a dinâmica de um processo. Pensamos que estamos no topo, cheios de nós mesmos, quando na verdade, quando isso acontece, esvaziamo-nos não daquilo que somos, mas do que ainda podemos ser.

O nosso percurso tem altos e baixos, com certeza, mas se não tivermos o propósito de ir sempre mais além, abrindo-nos para os outros e com eles partilhar o que alcançamos, permitindo que esses também mais alcancem, bebendo nós deles as suas experiências que assim nos permitem continuar a maturar, corremos o risco de nos tornarmos amorfos, sem esperança, sem amor, perdendo o rumo e a missão para a qual fomos designados: dar a nossa vida.

(Re)Nascer

Porque tenho consciência, gostava de tempos a tempos de voltar a nascer, mas tendo nessa nova vida os conhecimentos, a memória, as vivências que cumulativamente fui adquirindo nas anteriores.

Porquê? Para que possa não voltar a “cair” nos mesmos sítios, ou para “voltar a passar” noutros, que sei me fizeram crescer.

Ou então, se fosse possível, gostava de nascer só em/para determinados aspectos, apenas, que sei não abundarem ou sequer existirem em mim e que me fariam um ser mais completo e logo, melhor.

Ou renascer, para as coisas que em mim já existiram, e mesmo sendo boas, não as soube manter, não fiz bom uso delas, apartaram-se de mim ou morreram. (Deixei-as morrer!)

Em cada nascimento, enchemo-nos de mais vida, mais perto estamos do caminho perfeito, da comunhão com Deus.

E o que primeiramente nos parece figurativo pode perfeitamente ser literal: é possível nascer ou renascer a todo o momento, conscientes de que cada dia traz uma nova oportunidade de sermos mais!

E assim, sendo mais, estaremos mais próximos de cumprir a nossa missão e viver em plenitude.

(Paulo Viriato)